Precificação básica sem promessa: como montar um cálculo realista

Precificar como freelancer pode parecer um jogo de adivinhação no começo. Se você cobra “baixo para não perder o cliente”, corre o risco de trabalhar muito e se frustrar. Se cobra “alto sem base”, pode afastar oportunidades e ficar inseguro na negociação. Um caminho mais estável é tratar preço como cálculo + critério: quanto custa entregar com qualidade, qual é o esforço real, quais riscos existem e qual escopo está sendo assumido.

Este artigo é educativo e informativo. Os valores e números abaixo são exemplos ilustrativos para mostrar o método. Eles não representam garantia de clientes, de remuneração ou de qualquer resultado financeiro.

O que o preço precisa cobrir (além do “tempo trabalhando”)

Antes de pensar em “quanto cobrar”, defina o que seu preço precisa sustentar:

  • Tempo de produção (o que você faz “mão na massa”)
  • Tempo invisível (briefing, mensagens, ajustes, organização, backup)
  • Custos fixos (internet, energia, ferramentas, equipamento)
  • Custos variáveis (taxas, banco, plataforma, deslocamentos eventuais)
  • Impostos/encargos (quando aplicável à sua realidade)
  • Risco operacional (mudanças, atraso de material, retrabalho)
  • Margem de segurança (para evitar trabalhar sempre no limite)

Quando os itens invisíveis não entram na conta, o preço parece “bom” no papel e tende a ficar apertado na prática.

Gráfico textual — A composição do preço (visão em camadas)

PREÇO REALISTA (CAMADAS)

[1] Custos (fixos + variáveis)

        +

[2] Tempo total (produção + invisível)

        +

[3] Risco e margem (buffers)

        +

[4] Escopo e critério de pronto (o que está incluído)

———————————

= Preço final (com base e justificativa)

Passo 1: Estime seu custo mensal para trabalhar

Você não precisa de um plano perfeito; precisa de uma base honesta.

Checklist rápido de custos (exemplos)

[ ] internet / telefone

[ ] energia (parcial)

[ ] equipamento (reserva para manutenção/troca)

[ ] ferramentas e assinaturas (quando necessário)

[ ] taxas bancárias/plataformas

[ ] espaço/estrutura (se houver)

[ ] reserva para imprevistos

Dica: se um item é usado também para lazer, considere uma parte proporcional. O objetivo é realismo, não perfeição.

Passo 2: calcule suas “horas produtivas” por mês

Nem toda hora do dia vira entrega. Comunicação, organização e pausas existem. Um caminho simples:

  1. Defina quantos dias por mês você pretende trabalhar (ex.: 20).
  2. Defina horas por dia (ex.: 6).
  3. Aplique um fator de produtividade (ex.: 60% a 70%).

Exemplo ilustrativo:
20 dias × 6 horas/dia = 120 horas no mês
120 × 0,65 = 78 horas produtivas

Isso evita o erro de dividir custos por um número de horas “idealizado”.

Tabela — Modelo simples para chegar na sua taxa mínima por hora

ItemExemplo (ilustrativo)
Custos mensais para trabalharR$ 900
Objetivo mensal para cobrir seu tempo (exemplo)R$ 2.100
Total necessário no mêsR$ 3.000
Horas produtivas no mês78 h
Taxa mínima por hora (base)R$ 38,46/h

Como usar: essa taxa mínima é um chão para projetos. Não é “preço de mercado”; é uma conta inicial para apoiar decisões.

Passo 3: estime o tempo total do projeto (incluindo o invisível)

Aqui é onde muita gente se perde. Faça a estimativa em blocos:

  • produção principal (criar, editar, desenvolver)
  • briefing e alinhamento
  • revisão e ajustes (rodadas combinadas)
  • organização e entrega (exportar, versionar, testar, enviar)

Uma regra simples: some o tempo de produção e adicione um percentual para o invisível (ex.: 20% a 40%), ajustando conforme a complexidade.

Gráfico textual — Estimativa de tempo (com buffer)

ESTIMATIVA REALISTA (PASSOS)

[Tempo de produção]

   + 20% a 40% (tempo invisível)

   + buffer (imprevistos e risco)

——————————–

= Tempo total precificável

Passo 4: transforme horas em preço por projeto (e ajuste pelo escopo)

Preço-base do projeto = (horas totais estimadas) × (taxa mínima por hora)

Depois, ajuste de forma coerente com:

  • urgência (se você aceitar, com critério)
  • complexidade e responsabilidade
  • dependências e risco de mudança
  • nível de detalhe e volume de entregas

Ajuste deve estar ligado ao escopo e ao critério de pronto, não a “achismos”.

Exemplo completo (ilustrativo) de cálculo por projeto

Suponha:

  • taxa mínima: R$ 38,46/h
  • produção: 10h
  • invisível (30%): 3h
  • buffer (15%): 2h
    Tempo total: 15h

Preço-base: 15 × 38,46 = R$ 576,90
Você pode arredondar de forma coerente (ex.: R$ 580 ou R$ 600), desde que o escopo esteja claro.

Três armadilhas comuns na precificação

1) Cobrar só pelo “tempo de execução”

Se você cobra apenas pelas horas “mão na massa”, você trabalha “de graça” no alinhamento e no suporte.

2) Não limitar revisões

Sem limite, “ajustes” viram uma sequência longa, e o preço perde previsibilidade.

3) Preço sem regra de mudança de escopo

Mudança acontece. O que muda é como você lida:

  • adicional orçado
  • fase 2
  • troca de prioridade (entra X, sai Y)

Tabela — Três modelos de cobrança e quando usar

ModeloMelhor paraAtenção principal
Por horasuporte contínuo, tarefas abertasregistre escopo mínimo e forma de comunicação
Por projetoentregas definidasdeixe critério de pronto e revisões claros
Por pacote (mensal)recorrência com rotinalimite de demandas e organização de prioridades

Você não precisa escolher um modelo “para sempre”. Pode adaptar conforme o tipo de serviço.

Checklist de proposta para precificação (para colar e usar)

[ ] Entregas listadas com quantidade e formato

[ ] Limites (“não inclui”) definidos

[ ] Critério de pronto escrito em 1–2 linhas

[ ] Revisões: quantas rodadas e como enviar feedback

[ ] Prazo com regra de contagem (quando começa)

[ ] Estimativa de horas inclui tempo invisível

[ ] Existe regra para mudança de escopo

Encerrando com um norte prático

Precificar de forma realista não é “cobrar caro” nem “cobrar barato”; é cobrar com base. Quando você conhece seus custos, estima horas de forma honesta (incluindo o invisível) e define escopo com critério de pronto, a conversa com o cliente tende a ficar mais clara e profissional. Se você quiser começar de forma simples, monte sua taxa mínima por hora e aplique em um projeto pequeno, revisando o cálculo depois da entrega. Esse ciclo de ajuste costuma ajudar a ganhar segurança e a tornar o trabalho freelancer mais sustentável, sem promessas e sem atalhos.